Quando o empresário precisa de crédito, quase sempre bate na mesma porta: o banco. Mas o mercado financeiro mudou muito nos últimos 20 anos e quem ainda não conhece as alternativas está pagando mais caro do que precisaria.
No episódio 123 do AmplificaCast, Eric Klein recebe Renato Lima, CEO da Serra do Amolar, para uma conversa direta sobre securitização de crédito, capital de giro e o cenário de juros altos que o empresário brasileiro vai enfrentar pelos próximos anos. Renato é advogado de formação, ex-gestor do Fundo Constitucional do Centro-Oeste na Sudeco e fundador de uma das poucas empresas que estrutura crédito para o middle market brasileiro, o range de 5 a 50 milhões que os grandes bancos ignoram.
O episódio é prático e direto. Se você é empresário, CFO ou CEO e já se perguntou como acessar crédito fora do banco tradicional, este é o ponto de partida.
De tributarista a gestor de risco próprio
Renato formou em Direito pela Universidade Católica de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 2002. A família era de servidores públicos, a mãe na Receita Federal e o caminho natural seria a advocacia tributária. E foi por ali que ele começou: estágio, especialização, depois quatro anos gerenciando dois escritórios de uma grande banca nacional, transitando entre Campo Grande, Brasília e São Paulo.
Mas o Direito, para Renato, sempre foi ferramenta, não destino.
“A minha empresa tem cinco anos? Não. Minha empresa tem 25 anos. Porque para dar certo nos últimos cinco, eu ralei 20 para trás.”
Quando saiu da advocacia com uma janela de liquidez, foi empreender direto. Primeiro a pecuária, uma escolha regional, mais por acesso do que por vocação. Depois a energia, por acaso: dois amigos portugueses o chamaram para montar um negócio de geração distribuída no Brasil. Ele sabia de Direito de energia. Não sabia nada de geração.
“Eu sei do direito da energia, eu não sei da geração de energia. Mas cara, vamos embora.”
A virada do setor público
Com as empresas rodando, veio um convite para assumir a Secretaria de Desenvolvimento de Corumbá, sua cidade natal. Ficou dois anos entre lá e Campo Grande. Depois foi chamado para a diretoria de fundos da Sudeco, o órgão federal responsável pelo Fundo Constitucional do Centro-Oeste, em Brasília.
Ali ele geriu uma carteira de R$ 36 bilhões, com cerca de R$ 8 bilhões emprestados por ano. A equipe era técnica, altamente capacitada — e o aprendizado foi enxergar, pela primeira vez, o outro lado do balcão do crédito.
“Como advogado, eu gerenciava risco de cliente. Num determinado momento, quis gerenciar risco próprio.”
Essa mudança de perspectiva, entender como o concedente de crédito enxerga uma operação, foi o que estruturou a Serra do Amolar. Depois de sair da Sudeco e voltar a São Paulo, Renato montou a securitizadora com foco em agronegócio e energia: os dois setores que ele já conhecia por dentro.
Como funciona a securitização na prática
Securitização é a transformação de recebíveis em títulos que podem ser ofertados no mercado de capitais. Em vez de ir ao banco pedir empréstimo, a empresa estrutura uma dívida: um CRA, um CRI, uma debênture e capta diretamente com investidores.
O processo começa com a análise do lastro: quais são os ativos, os recebíveis, as garantias reais por trás do título. Só depois de validar tudo isso o papel vai ao mercado.
“Quando a gente coloca um título no mercado, a gente já validou o lastro. Não estamos vendendo papel.”
Esse ponto é importante. O mercado viveu casos recentes de títulos emitidos sem lastro real, inclusive por bancos públicos regionais com estrutura grande. Se grandes instituições compraram carteiras podres sem perceber, o risco para o investidor comum é ainda maior. A diligência prévia é o que diferencia uma operação séria de venda de papel.
O gap que os grandes bancos não atendem
Há alguns anos, bancos de investimento só entravam em operações acima de R$ 100 milhões. Esse piso foi caindo para R$ 50 milhões, depois R$ 30 milhões. Mas o middle market brasileiro, empresas com projetos entre R$ 5 e R$ 50 milhões, continuou sem uma alternativa estruturada.
É exatamente esse gap que a Serra do Amolar ocupa.
“Existiu esse vazio do mercado de estruturadores do middle market. De 5 a 50 milhões, foi esse gargalo que a gente assumiu.”
A lógica é simples: montar uma operação de crédito tem custos fixos altos. Para um banco de investimento com equipe grande e demanda constante de operações grandes, uma estruturação de R$ 10 milhões não faz sentido operacional. Para uma boutique especializada, faz.
O mercado de crédito que o empresário não conhece
20 anos atrás, o empresário tinha cinco grandes bancos para bater à porta. Hoje o mercado é outro.
A XP fez um trabalho relevante de pulverização, com agentes autônomos, gestoras de investimento e estruturadores de dívida chegando a regiões que os bancos tradicionais nunca alcançaram. Hoje um produtor em Manaus pode estruturar um título e vendê-lo para um banco em São Paulo. A informação ficou fluida.
“O mercado de capitais está muito mais ativo. Você tem estruturadores de crédito regionais no Mato Grosso, no Goiás, pessoas que estão indo até o produtor explicando que ele pode emitir um CRA. O incorporador imobiliário pode emitir um CRI, uma debênture. Essa figura do crédito está sendo muito mais difundida no Brasil hoje.”
O problema é que o empresário tradicional ainda não conhece essas opções. Continua indo ao Banco do Brasil, à Caixa, ao Itaú, não por falta de alternativa, mas por falta de informação. Os grandes bancos investem muito em marca. São bancos de varejo: o negócio deles é conta e agência, não estruturar dívida para o seu projeto.
Crédito não é para resolver caixa
O conselho final de Renato foi o mais direto do episódio e o mais ignorado pelos empresários brasileiros.
Com a Selic em 14%, usar crédito para cobrir problema de caixa é uma armadilha. O custo do dinheiro é alto demais para ser aplicado em algo que não gera nova receita.
“Não utilize o crédito para resolver problemas de caixa. Seja realmente para alavancas de crescimento. Porque hoje o crédito está muito caro.”
A Selic a 14% significa que qualquer captação vai custar pelo menos isso, mais spread do estruturador, mais custo de emissão. A conta só fecha se o projeto financiado gerar retorno acima do custo do capital. Um projeto de expansão, uma nova linha de produto, uma aquisição, esses fazem sentido. Tapar buraco de caixa, não.
Renato estima que o cenário de juros altos deve persistir por pelo menos dois anos. Quem entrar em operações de crédito nesse período precisa ter resiliência, atenção e um projeto claro do outro lado.
Ouça o episódio completo
O episódio 123 do AmplificaCast está disponível em todos os canais:
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Sobre o convidado
Renato Lima: CEO da Serra do Amolar. Advogado por formação, ex-gestor do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (Sudeco). Especialista em estruturação de crédito para agronegócio e energia.
- LinkedIn: linkedin.com/in/renatolima-co
- Site: serradoamolar.co
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