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Como executivos devem usar a sua voz, com Letícia Pacheco

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Comunicação executiva não é falta de conteúdo. Você pode ter bagagem, história e experiência, mas ainda travar na hora de falar em uma reunião de board, numa palestra ou em um pitch de 30 segundos.

Esse é o diagnóstico que Letícia Pacheco, fonoaudióloga e especialista em comunicação executiva, traz no episódio 122 do AmplificaCast. Depois de dez anos ajudando líderes, CEOs e executivos a desenvolverem a voz que corresponde à autoridade que eles já têm, ela foi direta: o problema quase nunca é conteúdo. É a falta de clareza sobre o valor do que você já viveu e de um método para transformar isso em fala que influencia.

O episódio é prático. Tem casos reais, exemplos concretos e técnicas que qualquer executivo pode começar a aplicar hoje. Se você lidera, vende, se apresenta ou quer crescer na carreira, este episódio é para você.

De “bicho do mato” a especialista em voz

Letícia cresceu no Parque Marabá, periferia da Zona Sul de São Paulo. Era chamada de bicho do mato. Tinha dificuldade extrema de se comunicar. Não percebia as entrelinhas, não entendia as piadas, respondia uma coisa quando perguntavam outra.

“Minha tia falou assim: Letícia, vai na padaria e compra carolina. Eu cheguei na padaria com o dinheirinho que ela me deu e voltei com duas Ana Maria.”

Ela não fazia a mínima ideia que isso era uma dificuldade. Seus pais também não. Foi só mais tarde, estudando fonoaudiologia, que ela entendeu o que tinha vivido: um déficit de processamento auditivo, a dificuldade de processar e reter informações auditivas em sequência.

O caminho foi a música. Aos dez anos encontrou um violão velho na casa do avô, de corda de aço, que doía nos dedos. Mesmo assim aprendeu, tocou na igreja, depois em casamentos, depois guitarra. Guns N’ Roses, orquestra de Taboão da Serra. A música foi abrindo um outro portal de escuta e compreensão.

Na faculdade de Fonoaudiologia, percebeu que sua área de atuação não seria a clínica tradicional. Queria trabalhar com comunicação de forma mais ampla. Com executivos. Com líderes. Com pessoas que têm tudo para transmitir autoridade e travam na hora de falar.

Nos dez anos seguintes, construiu um método próprio, o que ela chama de Mente Comunicativa, e passou a atender desde líderes em ascensão até CEOs de grandes empresas, incluindo a Monja Coen, que depois de uma abordagem num evento virou uma das maiores mentoras de Letícia.

Por que a comunicação executiva se desenvolve com treino

A primeira coisa que Letícia derruba é a ideia de que comunicação é um conjunto de regras para memorizar.

“Comunicação é a única competência que quanto mais você estuda, pior você fica. Você tem que treinar.”

O raciocínio é preciso: quando você acumula teoria sobre comunicação sem praticar, a sua mente fica monitorando a própria fala em tempo real. Você começa a se julgar enquanto fala. O resultado é uma fala mais travada, mais controlada, menos natural.

O método dela é baseado em treino, não em leitura. Três meses de desenvolvimento em ciclos progressivos, combinando voz, corpo, roteiro e leitura de contexto. Não é um treinamento de mídia de um dia. Não é um curso de oratória de fim de semana. É um processo que muda o padrão de fala de forma permanente.

O problema nunca é conteúdo

Um dos pontos mais fortes do episódio é a inversão que Letícia faz sobre onde os executivos travam.

“Você sempre tem conteúdo. A sua história já é um conteúdo. O que eu percebo é que a pessoa não está vendo valor na própria história.”

Quando ela começa a trabalhar com um executivo, a primeira tarefa é organizar o conteúdo que ele já tem numa forma falada que influencia. E a reação quase universal é a mesma: “Eu não sabia que eu tinha tudo isso.”

A partir daí, a pessoa começa a aceitar convites para podcasts, para painéis, para palestras. A comunicação executiva começa a mudar quando a pessoa reconhece o próprio repertório e aprende a organizá-lo de forma clara para quem está ouvindo. Não porque aprendeu algo novo. Porque passou a enxergar o valor do que já tinha.

Ser visto não é ser lembrado

Letícia trouxe um caso que resume bem a diferença entre presença e impacto.

Uma cliente participava de um grupo de networking de mulheres desde o primeiro encontro. Estava sempre lá. Alta presença física, o tipo de pessoa que não passa despercebida. Mas quando organizavam um painel sobre o tema exato do trabalho dela, ninguém lembrava do nome dela para convidar.

“Quem não é visto não é lembrado. Mas quem não é ouvido é esquecido.”

O diagnóstico de Letícia foi rápido: voz baixa, tom trêmulo, apresentação que começava com o nome e o nome da empresa, e terminava aí. Nenhuma âncora para a memória de quem ouvia.

Depois de trabalhar a comunicação, ela passou a se apresentar com clareza sobre o que faz e para quem. No próprio grupo, as indicações começaram a chegar. A mesma pessoa. O mesmo conteúdo. A mesma sala. Resultado completamente diferente.

Como ler o perfil de quem está na sua frente

Um dos frameworks práticos do episódio é a leitura de perfil comunicativo, algo que Letícia aplica em tempo real em qualquer conversa.

Ela identifica quatro estilos: o analítico, o condutor, o expressivo e o assertivo. E ensina a leitura pelo tom de voz antes de qualquer palavra de conteúdo ser dita.

Tom monótono, pouca variação: analítico. Precisa de dados, números, tempo para processar. Tom descendente, vogais curtas, ritmo acelerado: condutor. Focado em resultado, quer a resposta primeiro. Cada estilo pede uma abordagem diferente, vocabulário diferente, ritmo diferente, estrutura de argumento diferente. Na comunicação executiva, essa capacidade de adaptação é o que permite falar com perfis diferentes sem perder clareza ou intenção.

Essa leitura é especialmente útil em reuniões de venda. Quem consegue adaptar o discurso ao decisor em tempo real, sem perder o fio condutor, fecha mais. Não porque disse coisas diferentes, porque disse as mesmas coisas da forma que aquela pessoa consegue ouvir.

O treino não vira personagem, torna você mais autêntico

A objeção mais comum que Letícia escuta é: “Se eu treinar, vou perder a naturalidade.”

Ela usa a Michelle Obama para desfazer esse mito. Letícia tem um vídeo da Michelle numa fase anterior ao trabalho de comunicação, falando de um jeito mais agressivo, com mais emoção não calibrada. A oposição usou essas imagens para retratá-la como rabugenta, o que afetou a campanha.

“Tinha uma incoerência entre verbal e não verbal. E toda vez que a gente cria essa incoerência, aí que parece que está fazendo o personagem.”

Quando a Michelle passou a trabalhar a comunicação, o resultado foi o oposto do esperado: ficou mais autêntica, não menos. O treino eliminou a incoerência entre o que ela queria transmitir e o que de fato transmitia.

A lógica se aplica a qualquer executivo. O treino não fabrica uma persona. Ele alinha o que você pensa, o que você sente e o que você comunica, para que esses três elementos falem a mesma coisa ao mesmo tempo.

O que separa executivos que chegam ao topo

Letícia trabalha com CEOs em processo de mentoria e identificou um padrão claro nos que chegaram mais longe.

“Às vezes eles nem eram tão bons em falar em público, mas em se conectar eles eram. Eles conseguem falar com as pessoas, tirar o melhor delas, e isso é totalmente comunicação.”

Fazer boas perguntas, perceber como cada pessoa trabalha melhor, adaptar o tom para gerar influência sem gerar defensividade, essas habilidades não são substituíveis por IA. E segundo Letícia, são exatamente o que vai diferenciar líderes nos próximos anos.

“Quanto mais você tiver isso e tiver uma boa comunicação, mais você vai crescer.” 

Para Letícia, desenvolver comunicação executiva também passa por saber ouvir, fazer perguntas melhores e adaptar a forma de falar sem perder autenticidade.

Ouça o episódio completo

O episódio 122 do AmplificaCast está disponível em todos os canais:

Sobre a convidada

Letícia Pacheco: Fonoaudióloga e especialista em comunicação executiva. Fundadora do método Mente Comunicativa. Dez anos desenvolvendo a voz de líderes, CEOs e executivos.

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