Se você trabalha com tecnologia, precisa entender por que desenvolver está virando commodity e o que isso muda para profissionais e empresas.
Tiago Morelli é fundador de duas empresas. A Go Enablers é uma consultoria boutique que atende grandes corporações implementando agentes de IA em operações reais, três anos de projetos rodando dentro de empresas como Bayer e Leo Madeiras. A Zaia é uma startup que permite criar e vender agentes de IA como produto digital, voltada para agências e quem quer construir um negócio nesse universo. Antes disso, foi sócio de uma empresa de transformação digital que saiu com 360 desenvolvedores quando ele vendeu sua participação.
No EP121 do AmplificaCast, Tiago foi direto: fazer virou commodity. Decidir, não.
De cético a fundador em dois dias
Quando o ChatGPT foi lançado em 2022, Tiago era o maior cético da sala.
“Achava que tudo era árvore de decisão. Papinho para boi dormir.”
Dois dias depois do lançamento, ele já estava usando. E uma semana depois, estava tentando integrar o GPT no WhatsApp, sem ser desenvolvedor, sem ter feito uma integração na vida. Montou uma gambiarra com um servidor local e o próprio WhatsApp Web. Funcionou.
“Aquilo me arrepiou. Me desbloqueou. Eu fiz algo que nunca tinha feito e que pelas vias tradicionais eu não teria conseguido.”
Dali nasceu o Zap GPT, a segunda startup do mundo a integrar WhatsApp com GPT. Em cinco ou seis meses, chegou a 380.000 usuários. O Estadão ligou. A Exame ligou. Todo mundo queria falar sobre o assunto.
O pivô que veio dos dados
Com 380.000 usuários, Tiago foi olhar os números. Descobriu que 50% da base era de estudantes e que estudante era o perfil que mais custava e menos pagava. Quem mais pagava, em quarto lugar na base geral, era o empresário.
Fez entrevistas. Perguntou o que queriam. A resposta foi clara: o próprio ChatGPT dentro da empresa, para atendimento e vendas.
Esse insight virou a Zaia. A primeira versão tinha uma promessa simples: crie um agente em até cinco minutos. Dez por cento dos usuários conseguiam e ficavam felizes. Os outros noventa abriam chamado de suporte.
“Criar o agente é só a ponta do iceberg. Se você não sabe o que está fazendo, não consegue extrair valor dele.”
A persona que salvou o produto foi a agência digital, o profissional que já trabalhava com tráfego, site, post. Fuçado por natureza. Ele voou na plataforma, trouxe feedbacks que a equipe nem sabia que precisava e ajudou a construir o produto real.
Fazer virou commodity. Decidir, não.
Tiago colocou no LinkedIn que é “Dev Full Stack enquanto LLM existir”. E tem desenvolvedor criticando até hoje.
A tese dele é simples: com o desenvolvimento com IA, quem tem visão de negócio e entende o que o usuário precisa consegue tirar uma ideia do papel muito mais rápido. Não porque é melhor programador, mas porque não há intermediário entre a dor e a solução.
“Eu estou desenvolvendo cinco vezes mais que o time. Por qual razão? Porque estou muito próximo do usuário. Sei exatamente o que eles querem.”
Mas Tiago não elimina o desenvolvedor da equipe. O papel dele mudou: não é mais quem escreve o código, é quem revisa, garante a arquitetura e evita que o projeto quebre por falta de critério técnico.
“Não acredito no vibe coding puro que elimina o desenvolvedor. Tem que ter alguém que sabe o que está acontecendo para revisar e endossar.”
O desenvolvedor que não quer ligar a câmera
Tiago dedicou um bloco inteiro do episódio para explicar por que tantos desenvolvedores estão em modo reativo diante da IA.
O raciocínio é histórico. Durante a transformação digital, acelerada ainda mais pela pandemia, o desenvolvedor se tornou o profissional mais escasso e mais valorizado do mercado. Trabalhava de casa, ganhava em dólar, com dois ou três empregos simultâneos, sem precisar ligar a câmera.
Aí vieram os LLMs, a IA generativa e o vibe coding. E o stakeholder de negócio começou a gerar código.
O código começou a deixar de ser um recurso escasso e passou a se aproximar de uma commodity.
“Esse cara que veio do espaço, super requisitado, super exclusivo, agora vê alguém de negócio fazendo mais código do que ele. E não está vendo mais valor no próprio trabalho.”
O resultado foi uma postura reativa, desenvolvedor falando que vibe coding tem gap de segurança, que não presta, que é perigoso. Tiago rebate: código escrito só por desenvolvedor também tinha vulnerabilidade. Sempre teve.
A saída não é resistência. É colaboração. O cara de negócio precisa entender que não é desenvolvedor e que isso é um risco. O desenvolvedor precisa sair do quadrado técnico e chegar mais perto do cliente. Os dois juntos, trabalhando para o mesmo objetivo, é o que funciona.
O esvaziamento que ninguém anuncia
A Go Enablers já entrega agentes de IA para empresas há três anos, atuando em atendimento, suporte, vendas e processos internos. Atendimento de colaborador na Léo Madeiras. Primeiro projeto de IA generativa da Bayer global, atendendo consumidor final no Instagram, auditado globalmente, aprovado.
Esse movimento mostra uma mudança clara: tarefas antes caras e dependentes de equipes grandes começam a se aproximar de uma commodity, enquanto estratégia, governança e decisão continuam exigindo contexto.
Tiago foi direto sobre o que está acontecendo nas corporações que nunca admitem publicamente:
“A narrativa é que vai rolar realocação das pessoas. Mas o objetivo do board é outro. Cortar o máximo de pessoas possível, diminuir custo, substituir por agentes autônomos.”
O que já está validado no mercado: suporte, SDR, vendas e atendimento, tanto para cliente quanto para colaborador. Processos repetitivos que antes exigiam equipes inteiras.
Mas ele também foi equilibrado: dizer que basta entrar no Claude e está tudo substituído é papo para boi dormir. O desafio real é implementação. Governança. Quem dentro da corporação está pronto para gerenciar 1000 agentes simultâneos e garantir que não há sobreposição entre eles?
“O cara que vai vestir a camisa é um em dez. Esse é o desafio.”
A habilidade mais valiosa agora
Eric perguntou qual habilidade um profissional precisa desenvolver para se manter relevante. A resposta de Tiago foi uma só:
Reaprender. E gostar de reaprender.
“Se você não habilitar essa chavinha no cérebro de que você ainda tem folhas em branco no seu livro, vai ser muito difícil ser um profissional de valor nessa era.”
Em um cenário no qual boa parte da execução tende a virar commodity, aprender rápido e interpretar contexto ganha ainda mais peso.
O ferramental de inteligência artificial muda rápido. Os fundamentos não. Os fundamentos não. Lean Startup, Design Thinking, visão de negócio centrada no usuário, esses são os alicerces que permitem a qualquer profissional se adaptar ao que vier depois.
Como encontrar o Tiago Morelli
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/morelli-tiago/
Ouça o episódio completo
🎧 Spotify: https://open.spotify.com/episode/2ds9Rd72xXtD3VJ7xY5j4C
📺 YouTube: https://youtu.be/x-gXMR-Sn7k?si=hV0GkBOJXzleOZPg
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