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Fazer virou commodity, mas decidir não, com Tiago Morelli

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Desenvolver com IA virou commodity. Hoje, qualquer pessoa consegue criar uma aplicação, uma automação ou um protótipo sem ser desenvolvedora e sem ter estudado programação. Você descreve o que quer, a IA executa. A execução ficou barata.

O que não virou commodity foi a capacidade de decidir. Entender o negócio, ler o contexto, escolher o que vale construir, sentar com o cliente e perceber o que ele não está dizendo. Isso ainda depende de gente.

É justamente essa mudança que Tiago Morelli, fundador da Zaia e da Go Enablers, discute no episódio 121 do AmplificaCast.

Tiago tem duas empresas: a Go Enablers, boutique de consultoria que atende grandes corporações implementando agentes de IA em processos complexos, e a Zaia, a primeira plataforma de agentes de IA do Brasil focada em agências e consultores que querem construir um negócio em cima desse universo. Com três anos de operação, ele é uma das pessoas que mais cedo entendeu o que estava vindo e tem os casos para provar.

Como Tiago Morelli criou uma IA no WhatsApp e chegou a 380 mil usuários

Tiago não é desenvolvedor. Nunca foi. Quando o ChatGPT foi lançado no final de 2022, ele era maior cético. Achava que LLMs eram “papinho para boi dormir” até usar pela primeira vez. Dois dias depois do lançamento, já estava testando.

A primeira pergunta que teve foi prática: como minha mãe usa isso? Não era o perfil de quem abre o browser, cria uma conta e digita. O canal natural era o WhatsApp. Então ele tentou fazer uma integração, sem saber programar, sem ter feito uma integração na vida.

“Eu fiz uma baita gambiarra. Um servidor num local lá, usando meu próprio browser, meu WhatsApp web. E basicamente eu consegui conectar o ChatGPT no meu número. Aquilo me arrepiou, me desbloqueou.”

Dali nasceu o Zap GPT, segunda startup do mundo a integrar WhatsApp com GPT. Em cinco ou seis meses, chegou a 380.000 usuários. O modelo era B2C: o usuário mandava mensagem, tinha dez interações gratuitas, na décima o sistema perguntava se queria continuar por R$ 29,90 por mês.

Metade da base eram estudantes, que não pagavam. O principal pagante era o empresário, que estava em quarto lugar na base global. Tiago fez Customer Discovery, entrevistou uma amostra, e a resposta foi clara: eles queriam usar IA no atendimento e nas vendas da empresa. Esse insight virou a Zaia.

Por que a Zaia precisou reconstruir sua plataforma de IA

A primeira versão da Zaia foi construída com legado em cima de legado. Cada nova funcionalidade quebrava outra. A arquitetura não foi pensada para escalar, porque ninguém sabia o que ia escalar.

O que Tiago identificou como o erro central foi diferente do técnico: a equipe começou a adaptar a narrativa ao produto, em vez de adaptar o produto à narrativa.

“A gente começou a fazer uma falha nossa: adaptar a narrativa ao produto, ao invés do produto adaptar a narrativa que a gente gostaria de fazer. E aí estagnou.”

A decisão foi reconstruir tudo do zero. Houve embate entre líderes técnicos. Um dizia que dava para salvar nos perrengues. O outro queria começar do zero. Venceu a reconstrução. Hoje a plataforma é completamente agnóstica e consegue evoluir.

O aprendizado que ficou: criar o agente é só a ponta do iceberg. Se você não entende o processo, não sabe o que está pedindo, não vai extrair valor do agente. Ele não vai atingir os resultados esperados.

O que são agentes de IA e por que tantas empresas erram na implementação

Tiago explicou a diferença com clareza. Um assistente básico é uma interação: você pergunta, ele responde. O ChatGPT original funcionava assim, tinha limitações de data, não buscava na internet, não executava nada.

Um agente é uma arquitetura diferente. O centro continua sendo o LLM, mas a estrutura ao redor dá autonomia para ele operar com objetivos. Ele planeja, executa, revisa, tenta de novo se errou, chama APIs simultâneas, combina outputs. Você configura o nível de autonomia.

“Você configura esse nível de autonomia. O agente não é mágica, é arquitetura com objetivo.”

O problema é que muita empresa está implementando agentes sem entender isso. E sem entender o processo que o agente vai executar. O resultado é um agente que funciona em demo e falha em produção.

O desenvolvedor que não quer ouvir

Um dos trechos mais diretos do episódio foi sobre a crise da categoria de desenvolvedores. Tiago traçou o arco histórico com dados.

A transformação digital das empresas criou uma demanda absurda por desenvolvedores. Não tinha mão de obra suficiente, então o preço subiu. Por 16 anos, o desenvolvedor foi um dos profissionais mais valorizados do mercado. A pandemia acelerou ainda mais essa demanda.

Depois vieram os LLMs capazes de escrever código em segundos. Aos poucos, aquilo que era escasso começou a virar commodity. Criar uma página, um protótipo ou uma automação deixou de depender exclusivamente de quem sabia programar.

“Esse cara que saiu do humano espaço, super requisitado, super exclusivo, para do tipo, calma aí. Esse stakeholder de negócio está fazendo mais código do que eu?”

O problema, segundo Tiago, é a postura reativa. O desenvolvedor que nega o Vibe Coding por “gaps de segurança” sem reconhecer que código feito só por humanos também tinha vulnerabilidades. O que precisa acontecer é o oposto: o desenvolvedor precisa vir mais para o negócio, e o profissional de negócio precisa entender que precisa de um desenvolvedor para revisar o que a IA gerou.

Quando desenvolver vira commodity, o que acontece com os profissionais?

Durante anos o mercado premiou o especialista. Profundo, técnico, focado num domínio.

“Antes o pessoal defendia o profissional especialista. Agora, ao contrário, os generalistas são os reis do mundo.”

Se a execução se torna uma commodity, entender negócio, contexto e processo passa a pesar ainda mais. O generalista que usa IA se torna mais produtivo que o especialista que não usa. E o especialista que não se adapta perde espaço para quem se adapta.

O esvaziamento não é ficção. Tiago implementa agentes dentro de grandes corporações há três anos. Suporte, SDR, atendimento ao colaborador, esses são os primeiros casos validados. Uma pessoa que antes fazia só aquilo agora tem que fazer outra coisa.

Como ganhar dinheiro com agentes de IA hoje

A Zaia foi construída com foco em agências e consultores que querem criar um negócio de agentes. A ideia é que o consultor usa a plataforma para construir e entregar soluções para seus clientes, sem precisar de infraestrutura própria.

Tiago citou um caso concreto: um cliente chamado Fábio que começou aprendendo a fazer agentes, atendeu um cinema, escalou para dois, para três e construiu um modelo de receita recorrente em cima disso.

O modelo de repasse de custo que a Zaia adota é transparente: o cliente final paga o custo de token diretamente, sem markup. A plataforma cobra por uso da infraestrutura, não pelo consumo de IA.

Qual habilidade será mais importante na era da IA?

Tiago foi direto quando Eric perguntou sobre o que vai diferenciar profissionais no cenário atual.

“Para mim é reaprender e gostar de reaprender. Se você não habilitar essa chave no cérebro, você tem muitas páginas do seu livro, mas vai ter folhas em branco que não sabe como preencher. E vai ter cada vez mais.”

Não é sobre saber usar uma ferramenta específica. É sobre a disposição de começar do zero quando necessário. De colocar a sandália da humildade e reconhecer que o que está vindo é bom mesmo que exija reaprender o que você construiu.

O que a IA não substitui, e Tiago foi claro nisso, é a capacidade de sentar com um cliente, entender o que ele está passando, e decidir o que vale fazer. A inteligência artificial está fazendo da execução uma commodity. Saber o que executar continua sendo o diferencial.

Ouça o episódio completo

O episódio 121 do AmplificaCast está disponível em todos os canais:

Sobre o convidado

Tiago Morelli: Fundador da Zaia, primeira plataforma de agentes de IA do Brasil focada em agências e consultores. Fundador da Go Enablers, consultoria de implementação de agentes para grandes corporações.

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