Se você está construindo uma carreira executiva ou já está numa posição de liderança, este episódio traz referências concretas que valem mais do que qualquer framework de desenvolvimento profissional.
No episódio 119 do AmplificaCast, Eric Klein recebe Luiz Felipe Bay, executivo com mais de 35 anos de carreira, sendo 25 deles no setor de saúde. Luiz Felipe foi CEO da Fórmula, rede de farmácias de manipulação pertencente à RD Saúde, e conduziu a venda da empresa num processo de M&A que durou nove meses. Ele conta, com detalhes e sem filtro, como foi cada etapa dessa trajetória, dos primeiros empregos aos bastidores de uma negociação bilionária.
A trajetória de Luiz Felipe Bay
Luiz Felipe nasceu em São Paulo e entrou na PUC em 1991 para estudar Economia. Quase ao mesmo tempo, começou a trabalhar, primeiro como assistente financeiro numa construtora, depois numa distribuidora de petróleo. Com 20, 21 anos, passou em duas das Big Five de auditoria: a Directa e a Arthur Andersen. Ficou três anos na Arthur Andersen.
“A auditoria foi a grande escola da minha vida. Não só da parte contábil e financeira, mas de começar a entender as metodologias para compreender como uma empresa funciona.”
A auditoria deu base metodológica. Mas não era onde ele queria ficar. Sua vocação era trabalhar com pessoas, com o presente, não com o diagnóstico do passado. Quando uma amiga o indicou para um programa de jovens talentos do Walmart, recém-chegado ao Brasil, ele foi.
O programa envolvia executivos do Brasil, Argentina e Colômbia, com passagem pela sede em Bentonville, nos Estados Unidos. Luiz Felipe se inscreveu para a área de logística. O Walmart encerrou o programa no primeiro ano por resultado ruim, mas deu aos participantes a escolha de qual área ficar no Brasil. Ele foi para comercial, que na época, era o que chamou de “dream team”.
Passou seis meses fazendo planejamento comercial com uma divisão americana antes de entrar de vez em compras. Com 25, 26 anos, assumiu a primeira posição de liderança como gerente de merchandise na categoria de eletrônicos.
O erro que ensinou mais do que qualquer acerto
Com a carreira em ascensão no Walmart, Luiz Felipe foi seduzido por uma proposta do Mappin Telecom para ser o principal gerente comercial de uma divisão de celulares em shoppings. Era 1998, 1999, auge da privatização da telefonia no Brasil. Parecia uma oportunidade perfeita.
“Foi uma das piores decisões que tomei na minha vida. Olhei os números da Mappin Telecom, entendi o que significava o negócio, e esqueci de olhar a Mappin Lojas, que estava numa condição super estrangulada.”
Seis meses depois que entrou, a empresa começou a entrar em default e fechou tudo. O gestor que o contratou lhe deu duas opções: ser demitido na hora ou ficar até o final, ajudando a encerrar a operação. Luiz Felipe ficou. Conduziu as demissões da equipe, organizou a saída de forma honrosa, e quando tudo terminou, recebeu uma ligação de um ex-diretor do Walmart que estava abrindo a divisão de celulares e entretenimento do Pão de Açúcar.
Ficou praticamente um dia desempregado.
O propósito que veio com a Raia
Depois do GPA, Luiz Felipe recebeu uma proposta da Raia. Foi aí que a palavra propósito passou a fazer sentido de verdade.
“Você não está preocupado essencialmente em vender, mas em primeiro se relacionar, atender bem e ver a venda como consequência. Isso para mim foi o que me transformou na carreira.”
A Raia da época, liderada pela terceira geração com Antônio Carlos à frente, tinha passado por uma transformação cultural nos anos 90: colocar a relação com o cliente antes de qualquer meta de venda. Quando Luiz Felipe entendeu essa cultura, se reconheceu nela. E ficou 25 anos.
“Se você estiver fazendo a mesma coisa durante 25 anos, tem alguma coisa errada.”
Ao longo desses 25 anos, ele passou por múltiplas fases dentro do grupo, da área comercial à fundação da Universal, plataforma proprietária de autorização de medicamentos que chegou a processar mais de 43% das transações da empresa. Em 2023, foi convidado a assumir a CEO da Fórmula, rede de farmácias de manipulação que a RD Saúde havia adquirido em 2015.
O que muda quando você senta na cadeira de CEO
A transição de diretor executivo para CEO foi o que mais pegou. Não pelos números, Luiz Felipe já estava acostumado a escala grande. O que mudou foi a dimensão da pressão e o número de frentes simultâneas.
“Como executivo, você tinha certeza que tinha um chefe. Como CEO com conselho, você tem seis, sete chefes. Eu ganhei do dia para a noite mais cinco, seis chefes.”
O maior desafio nos três anos à frente da Fórmula foi liderar uma transformação cultural num time com histórico de sucesso longo e muito apego à fórmula que os trouxe até ali.
“O grande problema de fórmulas de sucesso é você ficar apegado a elas. Tive que me firmar como principal executivo, liderando uma transformação cultural e ainda assim perseguindo os resultados que a empresa precisava ter.”
Ele fez uma transição de cinco meses com o fundador André antes de assumir formalmente. O cuidado era não quebrar abruptamente a cultura, mas deixar claro que haveria mudança.
Os bastidores de uma venda de empresa
O processo de venda da Fórmula durou nove meses. Luiz Felipe foi um dos pouquíssimos executivos envolvidos desde o início.
“Um processo de venda de empresa é quase uma gestação. Você não tem certeza até o closing, até a assinatura final.”
A decisão de vender veio de uma análise estratégica honesta: a Fórmula operava no atacarejo de medicamentos especiais, com uma complexidade logística muito diferente do varejo da RD Saúde. As sinergias esperadas não se materializaram. A conclusão foi natural.
Durante os nove meses, ele manteve a cabeça focada em fazer o negócio funcionar, e ao mesmo tempo foi amadurecendo o que viria depois. Só começou a pensar na próxima etapa da carreira na semana em que saiu.
“Não fiquei preocupado com o que seria da minha carreira depois. Comecei a dar atenção ao tema na semana em que saí. Mas isso também é parte de trabalhar sua inteligência emocional.”
Resiliência amorosa: o conceito que resume 35 anos
Uma das contribuições mais diretas do episódio é o conceito que Luiz Felipe desenvolveu para nomear o que aprendeu sobre lidar com adversidade.
“Não basta você só sobreviver. Você tem que ter algo a mais no coração. As vezes em que eu mais deslizei foi quando eu não prestei atenção na forma como eu lidava com os problemas.”
Ele chama isso de resiliência amorosa: a diferença entre aguentar o golpe e sair do outro lado sem se tornar duro, tóxico ou fechado. A referência que ele usa é o filme A Vida é Bela: duas pessoas na mesma cela. Uma olha as estrelas. A outra olha a lama.
“Se eu tivesse aprendido isso mais cedo, teria sofrido menos.”
O conselho final
Ao encerrar o episódio, Eric pediu um conselho para quem está passando por transições na carreira. A resposta de Luiz Felipe foi direta:
“Dê tempo ao tempo. Aprenda o caminho caminhando. Viva o presente, respeite o passado, mas não fique ansioso em excesso com o futuro. Foco no presente para construir um futuro melhor.”
Ouça o episódio completo
O episódio 119 do AmplificaCast está disponível em todos os canais:
- Site: amplificadigital.com.br/amplificacast
- YouTube: https://youtu.be/gUSMaPeDOTk
- Spotify: https://open.spotify.com/episode/2Cnj5xPLP3Vtow6d8yUdK4
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Sobre o convidado
Luiz Felipe Bay: Executivo com mais de 35 anos de carreira, ex-CEO da Fórmula (RD Saúde).
- LinkedIn: linkedin.com/in/luiz-felipe-bay
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